terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Tempo, plácido tempo!


Fernanda Coutinho
fmacout@terra.com.br
Professora de Teoria da Literatura da UFC

Da geografia lírica de Carlos Drummond de Andrade, dos tantos lugares que criou e recriou, é dos acanhados limites de uma cidadezinha qualquer, perdida num tempo antigo, que o escritor mineiro faz irradiar a luminosidade que nasce de seu dom de envolver em poesia as coisas singelas, inclusive o mais aparentemente banal cotidiano. “Presépio”, história situada em Contos de aprendiz, narra à primeira vista o dia-a-dia de Dasdores (“assim se chamavam as moças daquele tempo”). Dasdores, a que devia ter mãos e pensamento diligentes para alcançar todas as necessidades da casa. Ah! que vasto inventário de coisas a realizar, de desejos a satisfazer! “Cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos”. Se o conto cuidasse apenas de exibir o perfil de uma mulher de outrora, entidade quase anulada como sujeito de seus desejos, já valeria como excelente contraponto às práticas sociais do mundo feminino em nossa contemporaneidade.

Aliás, nem seria bem esse o caso, pois Dasdores, em meio a toda a azáfama de sua existência, reivindica o seu tempo-paixão, sugestivamente denominado Abelardo. “Quem pode vigiar sonhos de moça?”, alerta a voz do narrador, ecoando o temor prudente dos mais velhos.

Na realidade, por meio do drama de Dasdores: ficar em casa, colocando devagar e amorosamente em ponto de encenação a história de todos conhecida, a do humilde nascimento do rei-menino, vindo ao mundo numa manjedoura, perto de Maria e José, e dos animaizinhos de Deus: vacas e bois, carneiros de espessa lã e um jumentinho de olhos tristes e grandes orelhas, ou ir armando o presépio, meio às tontas, ouvidos e coração atentos ao bulício de lá fora, ao tique-taque miudinho e rápido do relógio chamando para a missa do galo, chamando para a companhia de Abelardo – o poeta nos coloca diante de uma questão dilemática: como viver o tempo?

Poderá existir algo mais atual do que dizer à nossa contemporaneidade que estamos – alguns de nós – quase que constantemente, em estado de aflitiva pressa, cindindo-nos em tantos eus que já não somam um? De alguma maneira, a própria festa do Natal é a representação de um consumo frenético da vida, sem que a serenidade de permanecer junto às pessoas e às coisas exista de fato. Dasdores, “pura placidez” encarna bem o espírito do presépio – a etimologia latina da palavra relaciona-se a cingir-se, estar cercado por – e assim concentra-se com desvelo, em sua tarefa de amor, criando vagarosamente o cenário de paz daquela noite, num ritual de fidelidade ao deus das horas. Uma outra Dasdores atropelaria tudo, não esta, a quem não cabe a conclamação: “Correi, sôfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos sem perspectiva de paz ou conciliação.” Esta consegue ser fiel a si mesma, trazendo, como num sortilégio, para perto do presépio, um Abelardo fabricado pelo sonho, vivendo, assim, juntos, o tempo da noite milagrosa.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O encontro está marcado...

Valéria Geremia
valzen@uol.com.br
Graduada em Comunicação Social-Jornalismo pela UFRGS
Mestrado em Literatura pela UFC

O diálogo entre ficção e realidade tem um potencial muito rico. Podemos citar, em termos de cinema brasileiro, Central do Brasil, inspirado em um documentário, que fez de Fernanda Montenegro, durante as filmagens, uma real “escrevinhadora” de cartas para a população do interior. Ou ainda o seqüestro do ônibus no Rio de Janeiro por um sobrevivente do massacre da Candelária, que primeiro virou notícia, depois rendeu o documentário Ônibus 174 e recentemente passou a filme de ficção com Última Parada 174. Mas Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Masagão, tem uma estética considerada experimental e faz esse diálogo de forma mais complexa (tanto que recebeu maior número de convites para participar de festivais de cinema ficcional do que documental). Assim, é melhor compará-lo a Ilha das Flores, em que a história fictícia da trajetória de um tomate serve como pretexto para denunciar a realidade desumana à que parte da população é submetida devido à desigualdade da distribuição de renda no Brasil. Nesse caso (e em outros), a ficção bem desenvolvida retrata o objeto escolhido mais fielmente do que muitos registros documentais poderiam fazê-lo. A obra de Masagão, originalmente pensada como um CD-Rom, tinha como principal objetivo fazer uma seleção das principais mudanças ocorridas no século XX. Havia o risco de tornar-se um documentário óbvio, chato e superficial (algo um pouco pior do que as retrospectivas de final de ano exibidas pelas TVs – que veremos em breve, na despedida de 2008, aliás).

Nós que aqui estamos por vós esperamos, entretanto, é surpreendente, interessante e provoca reflexões filosóficas. Surpreendente por que foge da fórmula documental de utilizar um narrador para direcionar e explicar as imagens exibidas. Na maior parte do tempo, elas falam por si só (e essa é uma aposta na inteligência do espectador para “ler” a linguagem audiovisual). Em alguns momentos, há citações por escrito, que não repetem o que é mostrado visualmente (e novamente podemos nos sentir valorizados, por ser exigida uma interpretação dessa soma de informações entre texto e imagem). Também surpreende, e torna-se interessante, quando foge de um viés historicista tradicional. Sabemos, por certo, que a história que chega à posteridade é a história dos “vencedores” e não dos “vencidos” (dicotomia simplista que divide as pessoas apenas em dois tipos, resultante da miopia da mentalidade capitalista). Masagão não apenas coloca os “vencidos” e anônimos como protagonistas. Faz mais do que isso: cria personagens ficcionais para destacar homens e mulheres desconhecidos que sofreram, foram felizes e morreram (ou não) no século (e milênio) passado. Humanizando e aprofundando, ele transforma o ser humano comum em riqueza única. Cada um desses indivíduos se torna um tijolo importante para a construção do momento em que vivemos hoje.

Se falamos da linguagem das imagens, estamos obviamente falando da edição: a escolha de como montar as cenas. Foram 2 mil horas de edição ágil expressando leveza e poesia. Uma cena às vezes surge dentro da outra; ou se destaca em um fundo preto, como uma fresta através da qual nós, voyeurs da pós-modernidade, espiamos os personagens do passado. Destacam-se alguns paralelos muito inteligentes, como a tragédia do lançamento fracassado da Challenger e o costureiro que tenta voar da Torre Eiffel com asas feitas por ele mesmo, desastres de dimensões diferentes, mas observados com o mesmo assombro pela população. E ainda: Fred Astaire atua nos musicais e Garrincha dribla adversários, a edição criativa faz com que dancem juntos celebrando a vocação e o talento individual. As imagens editadas com ritmo e inteligência são costuradas pela deliciosa música de Wim Mertens , que dá um lirismo profundo ao conjunto (embora em alguns momentos mude o tom). É mais grave, por exemplo, ao sugerir o drama e a bufonaria trágica que emolduram a história sob o domínio dos grandes ditadores). A música é a alma, ou aura (me permita Walter Benjamin) que nos conduz, consoladora e compassiva, através da vida e da morte...

Em uma entrevista, o diretor declarou que, através dos personagens ficcionais (cuja morte normalmente é datada), pretendia falar da banalização da morte no século passado. Entretanto, seu documentário vai além: é um manifesto contra a banalização da vida e gera muitas perguntas que podem nos fazer refletir sobre nossa própria realidade. Afinal, o que torna um ser humano inesquecível: trabalhar na construção de bombas para uma Guerra Mundial ou fazer excelentes bolinhos de arroz? Permanece a idéia de que a história que escrevemos com nossas vidas, talvez, só se torne clara depois do fim...

Uma grande resposta é oferecida claramente: A Morte. Macabro? Mas realista. A inscrição do pórtico de cemitério escolhida como título, nós que aqui estamos por vós esperamos,vem nos recordar que somos todos, sim, mortais. E por isso devemos prezar mais a qualidade da vida que construímos no presente. É natural, agora, lembrar de Cidadão Kane e do simbolismo de sua última recordação, destacada no momento da morte do multimilionário e mega-empresário das comunicações. Seria um pecado imperdoável contar o final... assim, recomendo a quem não assistiu ainda que o faça logo, pois o filme de Orson Welles é considerado, em muitas seleções respeitadas, como um dos melhores filmes já feitos – quiçá o melhor. E, buscando instigar mais as reflexões e questionamentos que Nós que aqui estamos por vós esperamos provoca, sugiro, já que acabamos de recordar a nossa mortalidade, a leitura do blog http://linhasmortais.blogspot.com, produzido por alunos do Curso de Jornalismo da FIC para a disciplina Produção e Edição de Textos para Revista-2008.2, sob minha orientação, que visa abordar justamente Ela, ampliando nossa consciência e compreensão quanto aos medos, inseguranças e curiosidades mórbidas que surgem quando o tema é Morte.

Anexo: Trecho de Nós que aqui estamos por vós esperamos

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A propósito do ensaio sobre a cegueira


Oswald Barroso
oswaldba@ig.com.br
Escritor e Teatrólogo

Saramago propõe ao leitor um exercício de imaginação e raciocínio, criando uma situação dramática que altera a vida de todos e explicita comportamentos. Cria um contexto extremo: “Vamos imaginar se isto acontecesse! Como as pessoas se comportariam? Vamos, através desse filtro de profundidade, mergulhar na natureza humana, saber de que barro somos feitos. Coloquemos homens e mulheres numa espécie de purgatório, numa circunstância de epidemia (a peste) mortal, para ver como eles se comportam.” Cria, então, uma narrativa mítica, alegórica, metafórica, embora ambientada nos tempos atuais, embora pudesse ocorrer em qualquer tempo e espaço. Trabalha com ditados e parábolas: Talvez os olhos sejam a única janela da alma.

A cegueira coletiva funda um não lugar, um mundo sem referências, regido por outras relações. Um lugar onde mais valem o cheiro e a voz, quem, sabe. Onde mais valem os cegos mais antigos, mais profundamente cegos, porque lidam melhor com a cegueira

Numa cegueira branca não se aprende a viver, pois quando se aprende, dela se sai. E porque não se aprende, dela não se sai. Feito um gato, que melhor enxerga no escuro, feito alguém que funda seu muro, ou um vampiro, que a luz esmaga. Melhor, então, é viver (morrer) no escuro.

Em terra de cego, quem tem um olho é rei, ou rainha, como a mulher do médico, que por sua generosidade, por seu amor, que ultrapassa o marido e vai à humanidade, vira um Cristo ou uma Maria. Não se trata de uma cegueira de nascença ou de uma cegueira adquirida, que preserva lembranças visuais. Trata-se de uma cegueira metafísica, inexplicável pela ciência.

As situações limite despertam no ser humano o instinto de sobrevivência (como indivíduo ou/e como espécie), ressaltam suas melhores e piores qualidades. Invariavelmente, nelas, se exige o sacrifício das minorias. Por algum tempo, os relógios param. Mas logo voltam. Melhor seria se parados ficassem. Alguém não teria que se arriscar. Saramago conhece as nuanças da psicologia humana, quis fundar um mito, pela complexidade da trama e das relações sociais, um mito atual, datado talvez. Um mito histórico, se isso é possível, onde só a angústia é permanente.

O livro, ao contrário do filme, diferencia as alas entre os cegos e os contagiados. Nele a progressão dos acontecimentos no mundo exterior é acompanhada. Mas o filme concentra-se na ação física, enquanto o livro na ação interior. No livro, não há a resposta bruta da mulher de óculos escuros ao atendente da farmácia, por exemplo.

A cegueira branca é resultante do excesso de luz, certamente. Em que pese o esquema armado pelos poderosos com o fim de controlar as comunicações, nunca se teve tanto acesso aos seus meios. O avanço tecnológico e a disputa pelo poder econômico trabalham contra o monopólio da informação. O que não se sabia ontem, hoje se sabe. Compare-se com a década de 70, no Brasil, e a resposta será francamente afirmativa.

O pior cego é o que não quer ver, o que se nega a ver, por medo, conveniência, covardia, quem sabe, frente a um desfecho tido como sem remédio.

Anexo: Fala de Saramago para o documentário Janela da Alma de João Jardim e Walter Carvalho

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Do ideário sobre o corpo camponês no Brasil

Paulo Rogers Ferreira
anthropus76@hotmail.com
Antropólogo

“Ah, a miséria do imaginário e do simbólico, o real sempre adiado para amanhã.” Gilles Deleuze & Claire Parnet, 1998.

Em Os Parceiros do Rio Bonito, Antônio Cândido (1964), um dos pioneiros dos estudos rurais no Brasil, em uma parte complementar desta obra, A vida familiar do caipira, enfatiza como o homem do campo, no interior paulista, por conta de uma economia libidinal face às definições, é àquilo que não pode e nem deve ser pensado acerca do corpo camponês. Ao enclausurar esse corpo camponês em paradigmas, o pesquisador exila o corpo numa espécie de não-corpo: um corpo-mutilado. Neste sentido, Cândido inicia seu argumento afirmando que o casamento é necessário não apenas nas condições de trabalho, como também na vida sexual que prevalece no meio rural.

Casar é na verdade necessário não apenas dentro das condições de trabalho, como das de vida sexual que prevalecem no meio rural. Sem companheira, o lavrador pobre não tem satisfação do sexo, nem auxílio na lavoura, nem alimentação regular (CÂNDIDO, 2003, p. 288-289 – grifo meu).

Para Cândido, o celibato masculino naquela ambiência camponesa, é coisa rara e muitas vezes associado a doença. A intimidade da união sexual é compreendida como um “ajustamento satisfatório”, levando em consideração fatores psíquicos e sociais. Portanto, tanto para homens como para mulheres há situações impostas por condições econômicas e pelos valores grupais que afetam diretamente sua sexualidade.

Um ancião do grupo estudado, empreiteiro de roçadas de que se desincumbiam três filhos moços, costumava gabar as vantagens de morar com os pais – que asseguram roupa lavada, comida pronta na hora, orientação no trabalho. No entanto, de um modo ou de outro os jovens casam (ou se amasiam), sendo o celibato masculino raridade notável, ligada geralmente a doença. (CÂNDIDO, 2003, p. 289 – grifo meu)

Outrossim, para Cândido, o casamento, sob a ótica masculina, só traz vantagens já assinaladas, pois os padrões permitem conservar, dentro dele, “liberdade de movimentos”, inclusive eventuais “transgressões” de caráter sexual. Mas o pesquisador ainda alerta que estas “transgressões” não parecem freqüentes na vida quotidiana do caipira de nível modesto, pois este está fadado a tarefas pesadas e constantes. O início da lida na roça, para os meninos basicamente, marca geralmente o fim dos castigos corporais, pois o trabalho, segundo o pesquisador, é o critério principal para determinar a passagem à idade adulta. Neste contexto, desde cedo, os meninos ajudam os pais na faina da lavoura, mas apenas quando apresentam certo vigor físico, geralmente aos treze ou quatorze anos. Neste ínterim, como acentua Cândido, os meninos são “homens formados”, podendo por exemplo embriagar-se, ir sós à vila, fazer compras etc, e daí a pouco o casamento torna-se solução inevitável do ponto de vista sexual.

Com efeito, na roça as possibilidades de satisfação do sexo, fora dele, são praticamente nulas pelas vias normais. Não há prostituição e a virgindade feminina é norma cuja ruptura, embora freqüente, leva quase sempre ao casamento com o transgressor. Quem deflora, casa: esta é a regra que repõe nos eixos a ordem um momento ameaçada. (CÂNDIDO, 2003, p. 315 – grifo meu)

Ao tratar da masturbação, o pesquisador infere que ela é menos praticada no campo do que nas cidades, porque, segundo ele, o jovem caipira tem menos estímulo erótico, pois despenderia constantemente uma soma de energia física em outros afazeres. No entanto, quando o caipira é premido pelo desejo, aponta Cândido, resta uma via, geralmente percorrida por todos: o coito com animais.

Na área estudada [interior paulista] elas [as práticas com animais] são correntes, e como nem todos possuem gado de porte, os meninos e os jovens utilizam também as cabras, porcos e galinhas, mais acessíveis pela criação doméstica. Pode-se dizer que isto equivale à “masturbação compensatória”, corrente nas cidades, sendo, como ela, etapa transitória de iniciação, superada sem dificuldades aos primeiros contatos com mulher, que se estabelecem cedo devido ao casamento precoce. Num e noutro caso, apenas a incorporação definitiva aos hábitos sexuais do adulto poderia ser considerada desvio; e tudo bem pesado, a prática rural talvez seja menos nociva que a urbana, pois repousa menos na imaginação. (CÂNDIDO, 2003, p. 218 – grifo meu)

Por fim, Cândido ressalta que o êxodo rural pode desorganizar violentamente as famílias de caipiras pobres (entre as quais, sinaliza o pesquisador, se destacam as prostitutas das cidades), assim, a urbanização do caipira, que permanece na terra, encontra, na família, um elemento de adaptação que permite aos indivíduos transitarem de um a outro sistema de padrões e manter a coesão necessária ao trabalho produtivo e à manutenção dum código moral. Outrossim, em O campesinato brasileiro, Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976) ao discorrer sobre a divisão do trabalho sexual, a conduta sexualizada das camponesas e dos camponeses no Brasil, apregoa que concernente ao padrão autoritário da decisão do homem, as mães-de-família educam os filhos desde pequenos, mas lhes inculcam os padrões de comportamento ditados pelo pátrio poder. Em caso de desobediência grave, fazem queixa ao pai-de-família, que toma as providências necessárias. A autoridade familiar, para Pereira de Queiroz, é então claramente exercida pelo pai. Assim, embora não exista mais o padrão do pai escolher marido para as filhas, o consentimento dele continua importante para que o enlace se realize ou não.

A organização das famílias alemães de Palmeirinhas não mostrou, portanto, grande diferença para com a das famílias caipiras [analisadas por Cândido]. Como nestas, a mulher tem status de subordinação ao homem, principalmente ao pai, e em seguida ao marido. Os maridos são, nas famílias alemães de Palmeirinhas, chefes de família que conservam a autoridade em suas mãos. (PEREIRA DE QUEIROZ, 1973, p. 206 – grifo meu)

A mulher camponesa, para a pesquisadora, tem status de subordinação ao homem, principalmente ao pai, e em seguida ao cônjuge, endossando o imaginário instituído no TB. Na sociedade camponesa, embora havendo divisão de tarefas segundo os sexos, a mulher acompanha o marido ao campo; não haveria separação entre um universo masculino e outro feminino de trabalho, mas apenas um universo em que as tarefas masculinas e femininas são ora coincidentes, ora complementares. Eis, nesses termos, a complementaridade da mulher camponesa. Uma mão-de-obra útil para o roçado, uma sexualidade para a reprodução em prol da perpetuação da espécie, em suma, um caricatural corpo camponês. Burlar com tal ideologia é, para o discurso instituído dos camponeses, e também para a maioria dos discursos acadêmicos instituídos sobre o rural até então, motivo para a “expulsão estrutural” do grupo social. Uma outra pesquisadora, Margarida Maria Moura (1978), em Os herdeiros da terra, ao analisar a relevância da herança no campesinato mineiro, percebe que o patrimônio territorial é mais do que colocá-lo em mãos dos descendentes direto de um indivíduo, mas assegura-dor da reprodução da área como camponesa, em que a herança enfeixa um papel estratégico neste sentido. Falar de trabalho em São João da Cristina, vilarejo investigado por ela, é falar da distribuição das tarefas por sexo e idade entre parentes que habitam um mesmo sítio. Para Moura, a família compõe um grupo indissociável, no seu conjunto, da condição de trabalhadores econômicos, assim, a economia de cada sítio está calcada na oposição complementar “unidade de produção e unidade de consumo perfeitamente interligada na economia camponesa, fornecendo, por esta mesma razão, o seu traço distintivo fundamental” (MOURA, 1978, p. 19). Mormente, ao pensar o trabalho feminino e masculino naquele povoado, a pesquisadora demonstra que se trata de uma separação radical, isto é, ambos são denominados trabalhos, mas há um “trabalho de casa” e um “trabalho da roça”, instituindo assim, um corpo-funcional. O “trabalho da casa” cabe à mulher; mãe e filhas a partir da faixa de idade de sete a nove anos. Este “trabalho no lar” é também para o lar, ou seja, aquelas tarefas que visam a assegurar bens alimentícios, objetos ou serviços que servem à sobrevivência dos membros da casa. Destarte, a mulher camponesa atua na casa (unidade de consumo) onde desempenha um papel complementar ao homem, este que atua no âmbito da unidade de produção. Neste contexto tudo o que se liga à preparação para o consumo do que esta terra produz é atribuição da mulher.

Viu-se assim como a divisão sexual do trabalho cria um tipo e uma área de atuação exclusiva para o homem e para a mulher. (...) Restrita à “casa”, a mulher tem toda a sua atuação econômica voltada para a unidade de consumo. Sendo ali seu locus social, ela não trabalha a terra e também não “negocia”. Depende de alguém que o faça para ela, seu marido, na maior parte das vezes. A interdependência da unidade de produção e da unidade de consumo só funciona de fato com o matrimônio. (MOURA, 1978, p. 28 – grifo meu)

Uma terceira pesquisadora, Beatriz Heredia (1979), ao analisar o trabalho familiar de pequenos produtores do nordeste brasileiro, mais especificamente na zona da mata pernambucana, afirma que o trabalho no roçado é o trabalho do pai, definindo assim este âmbito como masculino. Já as atividades da casa, por estarem ligadas ao consumo, não são consideradas como trabalho e portanto correspondem ao domínio feminino. Entretanto, em diversas circunstâncias excepcionais (maior número de mulheres na casa, moléstias que assolam os homens da casa etc) a pesquisadora observou que as mulheres realizavam todas as tarefas do roçado. Mas, por outro lado, apesar de serem as mulheres que efetivamente realizam todas as atividades, as instruções sobre o que e como é feito continuam sendo decisão do pai-de-família. Este, mesmo quando não desenvolve nenhuma atividade material, mantém o controle e gerenciamento de todo o processo produtivo.

Neste caso, não se considerava que as mulheres estivessem assumindo tarefas propriamente masculinas mas sim que, de forma diferente, essas mesmas tarefas, quem em outras circunstâncias seriam vistas como trabalho, passavam a ser consideradas como ajuda. Desta forma, indicava-se que as mulheres, mesmo realizando as tarefas, estavam subordinadas às decisões e, em suma, à autoridade paterna. (HEREDIA, 1979, p. 82)

Em tese, o destino de homens e de mulheres adultos é estatutário, sufocado por este imaginário que se cristalizou no TB. Neste sentido, a mulher, tal qual Eva, personagem bíblico, é complementar ao marido, seu desejo é condicionando ao dele, como veremos na próxima subseção. Assim, no TB, como em alhures, os camponeses foram montados, formatados, programados em um conjunto coeso. Em contrapartida, ao tratar desta coesão conjuntiva e valorativa, Cornerius Castoriadis (2000) nos adverte:

Mas toda conjuntização, toda categorização, toda organização que instauramos/descobrimos mostra-se, cedo ou tarde, parcial, lacunar, fragmentária, insuficiente – e mesmo, o que é mais importante, intrinsecamente deficiente, problemática e finalmente incoerente. (CASTORIADIS, 2000, p. 215)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

28 anos sem ele

Rodrigo C. Vargas

No Brasil se chamaria João, tantos quanto na Inglaterra. Filho de Julia Stanley e Alfred Lennon - mensageiro de um hotel descendente de galeses e filho de um irlandês - John Winston (homenagem à família real inglesa) Lennon era um verdadeiro celta. Nasceu em 09 de outubro de 1940 no Hospital Maternidade de Liverpool. Seu primeiro endereço foi Penny Lane, subúrbio da cidade, na rua Newcastle número 9. Seus pais se casaram no cartório de registro de Mount Pleasent no dia 03 de dezembro de 1938 sem a presença de um único membro da família. Alfred sumiu logo após o nascimento do filho durante uma viagem a trabalho nos Estados Unidos (emprego em um navio comercial arranjado pelo avô de John, Pop - ex-marujo que ao se aposentar enfrentou a dificuldade de se adaptar a vida familiar, e caseira - para mantê-lo longe da filha) e quando voltou, anos depois, tentou raptá-lo mas foi descoberto a tempo. Essa foi a última vez que se viram. Meses antes, Julia sem esperança de receber qualquer notícia acabou se apaixonando e dividindo um quarto alugado com outro homem (pai de duas, das três meia-irmãs de John). Esse foi o motivo pelo qual, aos quatro anos e meio, o pequeno Lennon foi obrigado a morar com a irmã mais velha de sua mãe, Tia Mimi e seu marido George em Vale Road na Avenida Menlove número 251 . Ela (Mimi) e Pop não aceitavam o que segundo eles era uma vida promiscua.

Em setembro de 1952, com quase 12 anos, John começou a estudar em Quarry Bank, escola preparatória para meninos. Foi nessa época que descobriu a musica graças às visitas as escondidas que fazia a mãe, fã de Elvis Presley, e com quem aprendeu a tocar. Foi uma espécie de afirmação no meio de tantos nãos que rodeavam aquele garoto. No início de 1956, aos 15 anos, montou a primeira banda: Os Black Jacks. Esse nome sobreviveu poucos dias. Logo passaram a se chamar Quarry Men. A primeira apresentação aconteceu no Lee Park Golf Club em Childwall nos arredores de Liverpool. Era como se estivesse sonhando, só que acabou sendo saculejado de forma brutal pela notícia da morte de sua mãe atropelada por um automóvel em alta velocidade no cruzamento da Vale Road com Menlove Avenue, cerca de quinhentos metros de sua casa. Judy, como era chamada por todos, estava indo visitar o filho. Meses antes Paul McCartney tinha passado pela mesma dor. Aquela terrível coincidência uniu os dois e os transformou na maior dupla de compositores e executores que o rock já viu.

Os Beatles mudaram o mundo mas aquele menino franzino de olhos firmes continuava lá. Suas dores e dúvidas acabaram sendo acalentadas por uma relação matriarcal com Yoko Ono. A segurança além da musica fez os Beatles perderem o sentido. Sua carreira solo foi marcada pela força do grito primal e pela sensibilidade de give peace a chance que em português quer dizer dê a paz uma chance, cantada por meio milhão de manifestantes em novembro de 1969, na marcha pela paz no Washington Monument; liderada por Pete Seeger. Alguns anos depois, todas aquelas vozes foram silenciadas pelas mãos de um fã assassino. No dia 08 de dezembro de 1980, em frente ao apartamento de John em Nova York, Mark David Chapman descarregou a arma enquanto o pacifista estava de costas. O homem que atirou tinha recebido um autógrafo horas antes. Caleidoscópio.

Boa parte do que John Lennon escreveu está lá atrás, na sua infância. Penny Lane era a rua onde morava o avô. Strawberry Fields seu esconderijo favorito. Mother o vazio deixado pela ausência materna e a tentativa de expulsá-lo do corpo. God, a negação de suas sombras. A música de John é atual e será daqui milhares de anos, por que John sempre foi João e mesmo quando falava de si, olhando para dentro, falava do mundo.